Como se fazer entender para pessoas não técnicas

Escrito em 17 de Março de 2022 por Camila Achutti

Atualizado em 24 de Agosto de 2023

Vamos lá, esse é o texto que eu* gostaria de ter lido quando comecei a desenvolver códigos dentro de times ágeis. Até então, eu recebia uma demanda que era colocada em uma esteira de entrega e se algum problema acontecesse uma pessoa do time, também técnica, me notificava e eu tinha uma segunda chance. No pior dos casos, eu tinha que explicar o que eu estava pensando verbalmente e recebia uma ideia em troca sobre outros caminhos.

Aí veio a tal agilidade e me colocou pra travar em squads e lidar com clientes. Foi assustador num primeiro momento, tendo que ponderar que um campinho de busca era muito mais complexo do que mudar a cor do site inteiro. Minhas primeiras plannings e reviews foram traumáticas. Até que eu decidi estudar psicologia comportamental e melhorar minha comunicação. Estamos em 2011.

Mudou tudo. Tudo. Aquilo que parecia um abismo foi ficando cada vez mais coerente para mim. E para minha surpresa, estar preparada para conversar com pessoas não técnicas me fez uma programadora melhor. Muito melhor. Percebi que eu vivia me escondendo atrás de jargões sem necessidade. Quem nunca soltou algo como: deve ser o cache? Deve ser o build? Deve ter dado algum problema no merge? Principalmente quando a demo falhava bem na frente do cliente. 

Pois bem, feito um contexto motivacional, venho por meio deste post compartilhar minhas principais estratégias desenvolvidas ao longo desses 10 anos de projetos de TI, programação e consultoria. Preparadas? Preparados? São 5.

Leia também: 

1. Imagine uma criança de 6 anos

Não, não estou falando para você ser infantil e sim combater a ilusão de profundidade explicativa sob a qual todos nós, seres humanos, estamos sujeitos. Quando a gente entra em uma área e cotidianamente escutamos, vemos e usamos coisas a gente acha que sabe como tudo funciona, mas isso não é verdade. Você sabe exatamente como funciona a descarga? A gente usa todo dia e não tem certeza se sabe como funciona até que alguém te pergunte. 

Quando imaginamos uma criança de 6 anos como interlocutora ela já está alfabetizada, mas não está sob efeito dessa ilusão e essa abstração te ajuda a não se apoiar em jargões que você acha que sabe explicar, mas lá no fundo nunca parou mesmo para entender ou se certificar.

 

2. Conduza com perguntas

Sócrates usava esse método, tanto que ficou conhecido como método socrático que nada mais é do que conduzir a compreensão de uma situação ou assunto respondendo com perguntas. Imagine que você quer conduzir uma investigação e se coloca na posição de fazer as perguntas óbvias. Com essa técnica pessoas não técnicas são convidadas a ir desfazendo crenças e desconhecimentos.

 

3. Seja vulnerável

O assunto está na moda e é mais simples do que parece no contexto de aplicação sugerido aqui: comece qualquer explanação dando a liberdade de todos questionarem siglas e jargões, criando um espaço livre de criação de conhecimento. O segundo estágio dessa dica é: assuma que você pode não saber tudo, mas quer muito explicar tudo que sabe.

Para quem não estudou tecnologia, por vezes existe uma aura (e eu até acho isso bom) de que é tudo muito difícil e que ela nunca vai aprender. Criou-se esse imaginário de que ou você é um gênio da matemática ou nada vai fazer sentido quando o assunto for tecnologia. A gente sabe que não é verdade.

No mais, lembre-se que seu objetivo é fazer com que as pessoas não técnicas entendam o que você e seu time fazem para produzir menos calor nas interações inerentes ao processo de desenvolvimento tecnológico.

 

4. Prefira sempre explicações por escrito e com imagens

A frase “uma imagem vale mais do que mil palavras'' tem uma razão de existir. Nós, humanos, somos muito visuais. Além disso, na maioria das vezes, estamos fazendo 15 coisas ao mesmo tempo. Por isso, sempre que for viável, escrever ou usar imagens para explicar um conteúdo mais técnico é a melhor estratégia. Dessa forma, fica tudo registrado e cada um pode tomar seu tempo para ler e reler. 

Outro detalhe é que as imagens não são lindas obras de arte impecáveis. Elas podem ser fluxogramas, kanbans e meia dúzia de bolinhas e palitinhos. Não estamos falando de estética e sim de funcionalidade.

 

5. Viés de confirmação

O viés de confirmação ocorre quando um indivíduo procura e usa as informações para apoiar suas próprias ideias ou crenças. Isso também significa que as informações que não apoiarem suas ideias ou crenças são desconsideradas. O que isso quer dizer? Por mais que você se esforce, existe uma chance grande de alguma ideia que já existe seguir sendo a única que faz sentido para seu interlocutor ou interlocutora. Não tem como evitar, mas reconhecer a existência ajuda. Por isso, começar questionando o que a pessoa está pensando pode ser uma boa estratégia para fazer pessoas não técnicas exporem crenças que podem atrapalhar nosso trabalho.

Espero que vocês, desenvolvedoras e desenvolvedores, tirem vantagem dessas dicas, no entanto, se dediquem a entender também os seres humanos, somos uma parte importante da nossa profissão. E conta pra gente como tem sido sua experiência!

 

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